no hospital concentro-me sempre nos passos. as enfermeiras, os auxiliares, os doentes, as estruturas das cadeiras de rodas. sempre senti os hospitais como insuportáveis pela dose de olhares que encerram dentro de portas. prefiro concentrar-me nos sapatos dos médicos que se apressam pelo corredor do que levantar o rosto e receber em cheio um olhar dorido. claro que há histórias felizes nos hospitais, eu é que simplesmente saio de lá derrotada, numa mistura entre medo, pena, e inveja. aquelas pessoas certamente têm problemas mais complicados do que o meu e mesmo assim andam pelos corredores entrecruzados do edifício orgulhosamente visando quem se lhes atravessa no caminho. há dias entrevistava uma pessoa que me dizia que aquilo que fez e que poderia ter sido considerado um acto de coragem era, para ele, simplesmente o instinto humano de sobrevivência, de lutar, de virar a página e seguir em frente. olhei-o de soslaio enquanto ele enrolava um cigarro concentrado. dias depois, à espera da minha vez no hospital, repetia aquelas palavras vezes sem conta em surdina, quando me abstraía do livro que me tirava daquela realidade. sempre admirei as pessoas que trabalham em hospitais pela força que deve ser necessária para lidar com todas as histórias que ali começam ou acabam. gostava de ter deixado todas as minhas inseguranças naquele chão axadrezado. talvez para a próxima já consiga.