ser como tu era poder reduzir a cinzas a dor que sinto no peito, que me queima em lume brando sem que eu lhe permita arder sem sensatez. ser como tu era escolher deliberadamente não ouvir a torrente de lágrimas que soltei à tua frente. ser como tu era querer apagar com um silêncio irresoluto tudo aquilo que não querias que eu descobrisse.  rodeia-te um muro de pedra fria que eu nunca consegui destruir, nem nunca vou conseguir, porque não sou aquilo que tu queres, e nunca serei. seria preciso dizeres o sim à pessoa que sou em vez de tentares moldar-me ao teu jeito, e o barro que sou recusa-se a caber-te nas mãos e escapa-se por entre os teus dedos. porque não sou como tu não consigo ignorar, esquecer, apagar, varrer, sem uma explicação.

acima de tudo, ser como tu era não precisar de mim. a carta que nunca lerás, porque te descubro uma completa incompreensão, espelhada em todos os poros do teu rosto: não precisas de mim e, sendo assim, para que precisas de mim?