ela foi ficando doente. foi-se ficando. no fundo, toda a família o antevia. é aquele tipo de morte aceitável, quando a idade pesa, o corpo se parte aos poucos, o espírito fica tão leve que nem mora lá. cheguei a casa e fui directa para o hospital. não vinha a casa há três semanas e o desgaste, meu deus, o desgaste, o choque de a ver numa cama de hospital, a minha avó que se chateava comigo quando eu chegava tarde e a más horas, que não deixava ninguém dormir até eu chegar, que tantas dores de cabeça me deu, tantas lágrimas causou a toda a gente. mas vê-la a dissipar-se entre lençóis nos últimos dois anos foi pior, muito pior do que tê-la a espalhar o seu mau feitio pela casa e pela família, até porque nem tudo é mau e ela tinha tantas coisas boas. tantas. uma avó, uma morte. à segunda visita eu já estava mais confiante. já tinha tido o choque, portanto sabia o que esperar. mal sabia. nem me reconheceu. morreu às 15h30 do dia de natal. como um passarinho, segundo dizem. não sei exactamente como morre um passarinho, por isso não sei confirmar. sei que não sofreu e que nem se apercebeu. e de repente os familiares que não via desde miúda a acreditarem que sabem como me sinto e a pousarem-me beijos repenicados na face manchada de lágrimas (“amarela, estás amarela”) a horas de fazer 25 anos. um pequeno quarto de século e tão cansada, já, destas charadas, de pessoas que não querem verdadeiramente estar ali, que nunca puseram os pés cá em casa para a ver. não tinha com ela uma relação fácil mas era permanente, estável, imutável e parte de mim.

e agora, uma semana depois, ainda coloco cinco pratos na mesa – e depois retiro um.