a minha avó não era uma pessoa consensual. lembro-me de ter discussões com os meus pais porque ela, quando eu era adolescente e saía à noite, os mantinha acordados com uma diatribe constante de é-assim-que-estão-a-educar-a-vossa-filha-ai-jesus. lembro-me de ela nunca ter gostado do meu pai, porque ele não era tudo aquilo que ela achava que ele devia ser, como marido da sua filha – rico, médico, advogado. não concordava com os princípios dela. discuti muito com ela. deu comigo em doida várias vezes, disse mal dela mais vezes do que me quero lembrar.

mas nunca consegui não gostar dela. era um dos meus portos de abrigo. havia tanta coisa boa para se gostar. tanta. há dois anos começou a encolher, aquele sinal de velhice transparente. ficou frágil. começou a esquecer-se de coisas. a culpa que sinto por todas as discussões que tivemos, por não ter estado diariamente com ela, ainda não me largou. e de repente o fim.

são dois meses desde o dia em que aprendi, firmemente, a não me desperdiçar. dois meses de ausência que ainda não arranjou forma de se habituar a mim. o tempo que perdemos em males menores não cessa de me surpreender e tento sempre, agora, relativizar. às vezes não consigo, mas já fui capaz de soltar amarras e gostar, simplesmente, sem freio.

os maiores entraves são aqueles que nós próprios criamos.