O Ultraje

No PÚBLICO de anteontem, Luís Fernandes, da Universidade do Porto, ironizou sobre a transformação em pasta de papel, pelo grupo Leya, “de dezenas de milhares de livros de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura, publicados pela ASA”.

Sempre quis comprar um dos livros destruídos: a antologia de poesia e prosa que Eugénio de Andrade fez e a ASA editou, com o nome maravilhoso e verdadeiro deDaqui houve nome Portugal. Era um livro bonito, grande, muito bem impresso e encadernado, sob a chancela da Oiro do Dia. Li-o na biblioteca de universidades inglesas mas, para vergonha minha (como já o tinha lido, num prenúncio dos malefícios da Internet), nunca o comprei; apesar de achar que, sendo caro, era barato para o que era. O papel era bom. A selecção era boa. Era um livro perfeito – e até hoje não o tenho.

Tenho ligações sentimentais ao grupo Leya (por causa d”O Independente) e ainda esta semana recebi uma proposta simpática e tentadora da Dom Quixote, que agora faz parte da Leya. Mas que posso fazer quando uma grande editora, recém-formada e sem qualquer tradição literária, transforma um livro que era caro de mais para eu comprar em pasta de papel? É de vomitar. Não podemos dar dinheiro a quem só pensa em dinheiro. José Saramago – mau escritor mas boa pessoa, na minha miserável opinião – foi enganado. Eugénio de Andrade e Jorge de Sena – um grande poeta e um génio – foram ultrajados.

Desejo sinceramente que a Leya se foda.

(MEC, Público, 04 Março 2010)

texto retirado daqui.

espaço também para a APEL (sou uma pessoa justa, pá), daqui.

Entrevista com o Secretário-geral da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros

E corrente as editoras destruírem livros que estão fora do mercado?

Sim. Há mesmo um prazo legal para o fazer, que penso ser de cinco anos, não tenho agora presente. Isto depois de perguntar aos autores se os querem comprar, como consta na cláusula de opção que têm abaixo do preço de capa.

E é um massacre, como disse a ministra da Cultura?

Tenho uma opinião mais matizada. Quando uma editora oferece um livro, exceptuando os que disponibiliza para crítica, tem de gastar 15% do preço de capa. Tem de pagar 5% de IVA e 10% dos direitos de autor, a não ser que este abdique deles. Há consequências fiscais e económicas de dar uma “coisa minha”. E ainda o transporte e embalagem se quem os recebe não os pagar. Por correio pode ficar por três euros cada livro.

Compensa fazer dos livros pasta de papel?

Se fosse indiferente, armazenavam-se. Há o custo do espaço, da conservação e a degradação do livro. E as editoras podem não querer comercializar livros antiquados e desactualizados. É preciso dizer que os livros são das editoras, que os pagaram.

E se o Estado o sustentasse?

Aí poderia haver outro problema, que não elenquei atrás: concorrência desleal. Imagine-se que se enviavam para países da lusofonia. Os editores locais teriam de concorrer com livros de borla. Isto [o livro] é um negócio e, se o livro passa a ser objecto de oferta, como viverão as pessoas que vivem de os escrever ou das tarefas em torno do livro? Mas essa [intervenção estatal] é uma questão política que não nos cabe discutir.

E a questão do livro como património cultural?

Por lei, de qualquer livro que se publica em Portugal tem de se enviar dois exemplares para a Biblioteca Nacional. Aliás, quando se diz que devia enviar-se os livros para as bibliotecas, há outra questão. As bibliotecas são clientes das editoras e se se determinasse um regime para que tivessem livre acesso aos livros um ano ou dois depois da sua publicação muitas deixariam de comprar livros e esperariam esse tempo até o terem grátis.

Não há uma solução do ponto de vista da APEL?

É um problema cada vez mais falso. Porque cada vez mais podem fazer-se edições mais pequenas a custos reduzidos com a evolução das tecnologias de impressão. Não estou a dizer que todas as editoras já o fazem, mas é uma tendência que se detecta e que gradualmente se massificará.

A Imprensa Nacional – Casa da Moeda queima livros?

Suponho que segue os procedimentos das outras editoras, mas terá de perguntar.