ontem falámos sobre o amor. sentámo-nos à mesa e, de faca e garfo na mão, preparámos uma autópsia. cada ano era um osso, cada coração partido uma veia. chegámos ao final de tudo sem saber nada.

não tenho assim muitos anos de experiência da coisa. ainda não cheguei aos trinta, ouvi dizer que por essas bandas a sabedoria cresce exponencialmente em relação ao aparecimento da primeira ruga (que cabelos brancos já tenho). espero. mas tenho muitos anos de experiência, ao mesmo tempo. sei que quanto mais sei menos sei, uma espécie de filosofia socrática que me ensina que somos todos imprevisíveis, e quanto mais certezas temos mais certeiramente elas são destruídas.

é que o amor dá trabalho, e cansa, e mói, e é incómodo, e chato, e muda-nos a vida, logo agora que estávamos tão bem. e agora, o que faremos quando já não somos nossos, e nos demos de forma incauta. e isto dá trabalho, é uma luta diária, e surgem problemas, não é uma viagem lisa, prometeram-nos uma viagem lisa, sem espinhos. suspiramos e choramos e encolerizamo-nos e prometemos que nunca mais, nunca mais. e depois a queda outra vez, ai que é tão bom sentir-me assim viva, o passado já lá vai, já diziam os antigos.

circular como qualquer tentativa, calamos os medos com a força de um beijo. lutamos pelo que é bom, conquistamos cada passo, selamos cada dia com um segredo a dois.

ontem falámos sobre o amor e percebemos que, no fundo, sabemos tudo.