ontem, que marcou o primeiro aniversário da morte da minha avó, fui arrastada para a igreja. a minha mãe tinha mandado rezar uma missa por alma dela. sempre discordei deste hábito de “mandar rezar” (i.e., pagar) missas, porque acho que se estivermos lá por uma pessoa, na nossa tentativa de homenagem, isso basta. mas contive a língua e apreciei o conforto de rituais sabidos de cor (cresci educada como católica, até um dia descobrir que de facto não o sou). olhei em volta e vi rostos envelhecidos que conheci jovens, e também pessoas novas, uma igreja cheia, e pensei em quantas destas pessoas teriam realmente fé e no conforto que isso deve ser. vejo passar uma mulher já de alguma idade, de cabelos brancos lisos e bonitos, de porte orgulhoso. penso precisamente nisso, no orgulho que deve ser ter-se uma fé, e na solenidade daqueles rituais, até a minha mãe se inclinar e sussurrar para a minha avó:

– vê aquela senhora de cabelo branco que está ali a passar? foi por ela que o prior se apaixonou!!

a minha avó responde com um “ahhhh” entendido.

e eu sorrio por dentro, pensando na outra avó por quem ali estamos e no quanto ela iria apreciar estes momentos de costureira. não tenho fé em deus, mas tenho fé em mim e nos que amo, e isso sim, conforta-me.