a mesa tinha um daqueles suportes giratórios para as pessoas (esses seres preguiçosos) passarem a comida entre si. estávamos num restaurante chinês perto da agência e a conversa de oito mulheres foi, inevitavelmente, dançar até à vida amorosa de cada uma – a nossa vida amorosa global, oito mulheres onde existe de tudo, desde o desastre crónico ao romance de adolescência permanente.  a experiência de uma a imitar o caso de outra, a mão amiga no coração (tu vê lá o que lhe dizes), o olhar reprovador (como assim ligaste-lhe três vezes?), a pena disfarçada (mas e deixou-te? assim, sem mais?). dos vinte e um aos quarenta e tais, toda uma teia social se desenhou naquela placa giratória com a qual brincávamos, girando os pauzinhos entre os dedos e pescando um camarão do prato alheio. quão difícil é não nos tornarmos amargas, divagamos. e ter esperança, acrescentamos. e arriscar de novo, ouve-se ainda enquanto se debate a sobremesa ou a falta desta.

do verbo querer tanto se desenhou.

que lute. que perca a cabeça. que trace figuras imaginárias na nossa pele a meia luz. que nos vá buscar quando saímos demasiado tarde do trabalho porque acha que os transportes nos podem engolir em desalinho. que não minta. não engane. não invente. que nos olhe de forma clara e com um traço de diversão. que se perca à procura do nosso restaurante favorito. que faça viagens por impulso e conte sempre connosco. que não nos resista.

os homens, ai os homens. essas criaturas que nos dão talhadas no coração e nós cegos no orgulho.

 

agora temos as janelas todas abertas e paira um suspiro no ar.