Perguntam-me imenso hoje em dia o meu estado amoroso. Às vezes parecem mesmo esperar que eu abra o peito e faça uma verificação de rotina à máquina. Óleo? Travões?

Se não me importo de ser solteira. Que quase 27 anos são quase 30. Aparentemente há um grande ai-jesus pelos 30. Que os dias nos correm pela pele todas as manhãs e se acumulam no fundo do cesto da roupa.

Não tenho sido capaz, acho, de expressar perfeitamente o que sinto. Creio ser a primeira vez que me sinto sozinha há tanto e há tão pouco tempo. Se por um lado são curtos meses, por outro é um emergir que soa a mais longo e definitivo. Como é que eu descrevo que sei o que é incendiar um toque? Que me recordo de acordar mais cedo apenas para poder ficar junto a alguém a sonhar de olhos bem abertos? Que me lembro do que é alguém me abraçar no meio do nada e eu estar em casa? Há sorte e maldição em doses iguais num passado amoroso como o meu, tão bom quanto mau. Os meus retalhos favoritos não pertencem a só uma pessoa mas têm um sabor similar, o de um grande amor, de uma grande paixão, mesmo que depois se tenha vindo estatelar redonda no chão.

Acho que não houve ano em que tivesse crescido mais que este. Mais que em idade, que ainda é curta, e sim em experiência. E o resultado é aquela espécie de solidão acompanhada, tingida por uma exigência que acho não me ser exclusiva – preferir o memorável, o abismal, o risco desmedido que só acompanha as apostas em grande. Não as que nos parecem seguras, isentas, ou assim assim, ou só porque sim, mas as que fazem com que tudo depois valha a pena. Quando se segue o que se ama. Quando de facto se sente além da pele. Porque depois de nos recuperarmos algumas vezes, as cicatrizes acabam por ditar algumas escolhas.

A arte do erro amoroso é uma a que já limei quase todas as arestas, embora tenha a certeza que me esperam ainda algumas surpresas. Espero mesmo que sim.

Este raciocínio passa-me pela cabeça num minuto antes de invariavelmente responder algo nas linhas do “oh, é a vida” ou “tens irmãos giros, é?”. De alguma forma, parecem sempre as respostas mais fáceis…

E nunca se sabe quanto aos irmãos.